quinta-feira, 21 de agosto de 2014

The Riptide

  Boa noite, ele me disse quando sentou-se ao meu lado, saindo da névoa de Bishop’s Lane. A casa estava vazia e a maré e a névoa lambiam nossos pés descalços, uma lua cinzenta bem longe, um coro de náiades nos rios.
 É sempre estranho encontrar esse homem. Amável, ainda que perverso. Alguns o chamam de ilusão, outros mais letrados talvez o chamem de ID.

  Dois copos e uma cortina verde esmeralda, ruínas de um teatro ou coisa assim, não sei mais, já sofremos tantas mudanças. Ele tem cheiro, como a noite tem cheiro e você não consegue descrever com exatidão. Acho que a casa foi aquele teatro onde o vi pela primeira vez, mas sem as cortinas cor de sangue e sem a maior parte das paredes, o mar ali quebra nas pedras, as pedras requebram no mar. Existe uma corrente forte nesse mar sobrenatural, não sei onde eu estou, mas não quero saber, ele está aqui comigo.

  Ah sim. Ele se chama Santiago.

   Santiago sentou-se ao meu lado quando os sinos bateram uma hora não euclidiana, seu rosto irradiava um sorriso há muito esquecido. Há muito tempo não nos falamos de verdade. Cruzou as mãos diante da boca, o brilho azul esverdeado do mar refletindo suas lunetas escuras e seus dentes. Ele parecia alto, melancólico e saudoso, mas era sempre assim. Inclinei a cabeça para trás e contemplei o céu, não havia nenhuma aurora no alto.

Fico triste por isso.

  –Podia ser grato –ele dizia –pela dor que você me faz passar e crescer como uma rosa em chão congelado. Como as Fúrias de Rose Madder, eu retribuo o que você me dá. Mas logo nós dois vamos encontrar a corrente do mar, quem sabe vamos desaparecer no tempo, quem sabe as areias do tempo lembrarão nosso nome.

  Santiago deve ter nascido junto comigo, há longos 21 anos atrás, mas eu o devorei, como um gêmeo devora o outro dentro do ventre. Porém ele teimou em aparecer naquela hora, com sua roupa longa, suas mãos manchadas e seus olhos de Tundra. Tão diferente do que era quando surgiu em minha mente, tocando meu coração com seu punhal e o apertando de dentro para fora, como a fruta dentro da casca. Ele tremia com o frio, peguei a cortina e cobri seus ombros.
–Não sei se eu devo te chamar de pai ou de irmão. –Eu disse.
–Que tal “filho”. –Ele replicou.
–Não tenho idade pra ter filhos, Santiago
–Você está mais velho, talvez mais sábio, o tempo não para aqui fora. Mas logo logo a corrente virá, de dentro do mar, e vai nos mostrar o caminho a seguir, você não se sente mais só porque se encontrou, e isso é importante garoto. Tão importante quanto respirar, esse mar formado pelas lágrimas dos perdidos, nunca deixe-o tocar seu coração, nem se aproximar da sua boca. Ele é tóxico,serve apenas para banhar os pés.
As ruínas não são as mesmas, estão sempre em muda, um dia foram repletas de estátuas, agora estão bem maiores, as estátuas viraram pó, eu tomei um gole de gim, ele também. O ar estava claro, a noite limpa, somente a fumaça de Bishop’s Lane e o mar cobria nossos pés descalços. Eu realmente não me sentia só.
–O que você tem pra mim hoje, Santiago?
–Nada, só queria te ver, mesmo que teus amigos ou conhecidos sumam, só queria te dizer que eu ainda estou aqui, eu ensinei para o tesouro que você me deu que dentro de nós existe algo que vale a pena lutar, não pelas coisas do lado de fora, mas pela eterna transformação do nosso eu. Talvez o mistério permaneça pelo tempo de onde eu e você surgimos, ou de como terminaremos, mas enquanto alguém, um único ser, amarelo e magro, souber que existimos e levar em frente o que acreditamos, nós não vamos temer as areias do tempo.

  Acho que nesse dia eu e ele ficamos mais próximos. Porque quando ele apareceu eu realmente queria vê-lo. Não senti quando ele pegou em minha mão mas sei que o fez.
–Desculpe se as vezes faço você sofrer demais.
–Não precisa se desculpar, isso é imitação de vida. Quem dera alguém viver de verdade o que você me faz viver. 21 anos de ondas batendo no mar garoto, o tempo é cruel, nos resta aproveitá-lo, você não é mais criança, a maré vai vir junto com ondas altas. Mas estaremos aqui, eu e você. Por todo o tempo que virá, ideias não se perdem, um dia você quis ser eu, e então EU me tornei parte de você, viver uma vida, duas ou três, ter muitas cabeças como uma hidra, cada vez que o mundo lá fora corta uma surgem duas, mais fortes, sábias. Como os nossos antepassados que morreram por nós e nos deram liberdade, brindemos nessa noite, até chegar a próxima, e eu poder abraçar você de verdade no dia em que você chegar na Terra das Sombras ou na Terra dos Sonhos.
Acima de nós algumas constelações brilhavam, não sei se no céu ou eram os olhos das sereias no mar. E eu esperaria até meu sangue correr para o mar, ou a poeira do meu corpo se juntar ao calor simples da terra, mas deixar para trás algo importante, e não levar nada. Levar não importa, o que importa é deixar sementes boas para trás.

 Santiago encheu meu copo com gim.
Encheu meu coração com orgulho.