Deixei um
saco de ossos na porta de Cemetery Miles, antes de caminhar ao lado das águas
calmas da baía, e enquanto caminhava, o cheiro da pele dela vinha do mar
revolto ou do céu cinzento, eu não sabia, não sei até hoje.
Andava como
um cão cansado, no meu ritmo ciclotímico.
“Venha
sentar-se à mesa” os camponeses me disseram, mas neguei, passaria a tarde
olhando o mar, bravo, batendo contra as rochas de Bishop’s Lane. O mundo se
move tão devagar, eu suponho, as estrelas que giram sobre a minha cabeça
pontuam cada estada com um diamante, e o sino da igreja toca sete vezes, em
estranha harmonia com as ondas do mar.
E andando
pelos campos e mares, conversando com os faunos e dríades e coisas que não devo
e nem posso lembrar, descobri que o mausoléu está dentro do coração do homem.
Mas minha
irmã me chamava de Coeur de Pirate.
Viva o amor,
eu dizia, e os danos irreversíveis que ele deixa, mas os camponeses insistiram
para que eu sentasse com eles, e nada pude fazer a não ser tirar o robe de
chambre e oferecer minha cartola ao vento. Nos barcos os marinheiros cantavam
sobre deus e sobre tempestades.
Oh
forasteiro, eles diziam, se você não comer quem vai comê-lo é o mar.
E sentei com
eles, pensando em pegar a corrente sul pela manhã até encontrar o gelo, e
deleitar-me com a aurora que nem de longe era tão brilhante como os olhos dela,
ele, o mar, se lançava nas rochas, escavando-as, destruindo-as, e eu bebia o cointreau
debaixo da triste luz do farol, ao meu lado os caçadores do Transvaal
negociavam peles, eu negociava meu coração, nem caro, nem barato, apenas o
suficiente.
Quanto você
dá por um Coração de Pirata?
Como se chama
forasteiro? Perguntou Lady Cashmere.
Coeur de Pirate eu respondi,
sorrimos enquanto o peixe fresco vinha a mesa, exalando fumaça como a das
trincheiras na guerra em que lutei no Monte Wroclai, e as espadas e baionetas
retiniram no campo. Eu me lembro do capitão contando histórias.
“As trincheiras
são tão feias a luz da manhã, mas com meus irmãos de armas, nunca me senti tão
bem” Ele costumava gritar, antes do exército inimigo nos massacrar pelos campos
de Anzio nos seus trilhos Intercontinentais.
Enquanto o
tempo passava eu dormi em estâncias camponesas, levei em meus lábios os beijos
de Lady Cashmere e minha espada tirou sangue de diversos homens bravos, mas eu
sempre seguia um curso do som ou luz filtrada pela manhã ou fim de tarde. Então
conheci em Nantes uma grande orquestra onde eles tocavam o que eu queria
escutar, mas ainda não havia encontrado-a, nem nas noites de Bishop’s Lane, ou
nos dias enevoados de Nantes.
Ela apareceu uma vez, quando eu voltava para o
Monte Wroclai e tentava conviver com as lembranças da guerra e das trincheiras,
de como as rodas dos tanques pareciam-se rodas gigantes, ela apareceu na janela
de um trem, lábios vermelhos no rosto pálido, tão lindo quanto a Transiberiana
pela qual viajaria.
E meu Coração
de Pirata derreteu em meu peito.
Eu me
pergunto agora onde eu estaria se houvesse segurado a sua mão, meus lábios nem
teriam reminiscência de sabor dos de Lady Cashmere, ou passado noites com a
prostituta de Marselha. Adiante na trilha eu descobria as pequenas passagens
dela pelo mundo sépia e cinzento de portos e estações de trens do Leste
Europeu, entre os rostos sisudos das romenas e das noites de sexo quente com as
húngaras eu pensava em como poderia recuperar meu Coração de Pirata.
Uma vez um
homem me fez beber sangue em uma madrugada em Canterbury, um tal de Lancaster
Kronberg.
Lutei com um
homem chamado Santiago e ele me venceu, beijei os olhos verdes de sua filha e
ela me beijou os lábios, um louco chamado Redrin tentou me matar, mas sobrevivi,
e agora somos amigos, e ele me disse que conhecia um caminho para um Coração de
Pirata, mas eu teria que ir para o distante Norte onde as almas dançam no céu,
e eu voltei sozinho pelo mar amargando noites escuras com estrelas reluzentes,
mas as estrelas não eram companhia e estava indiferentes.
Quando cheguei
em Bishop’s Lane não havia nem vila, nem mesa ou comida, nem Lady Cashmere e
nem a prostituta de Marselha, havia apenas o saco de ossos, e ela contava um
por um, suas pequenas mãos brincavam com as costelas e o esterno, dele ela fez
flautas que embalaram nossas noites. Sangrei onde Santiago me cortou, e onde
Redrin bateu em mim, a pele ficou roxa, meus lábios ficaram quentes.
Ela deixou um
saco de ossos na porta de Cemetery Miles e pegou minhas mãos, meus olhos
cascateavam sob a luz das estrelas.
Coeur de Pirate
Ela disse, e
no corte da espada eu tirei meu coração e a dei.
E agora
navego para sempre pelo caminho entre praia e mar, até encontrar meu Coração de
Pirata outra vez
Uma vez minha
irmã disse para mim:
Nós somos peregrinos em uma longa jornada.
Eu acho que
ela estava certa.