terça-feira, 18 de março de 2014

Nova Baby

   

   Eu não lembro bem o que ela disse mas lembro bem que me deixou com muito fome e não tenho certeza para onde iam os ponteiros do relógio quando ela sentava-se ao meu lado. O frio pegajoso que fazia arrepiar-se e enjoar entranhava-se na minha pele, frio daquela sala cinza e mal feita enquanto ela falava sobre coisas que muito depois viriam a ter algum sentido substancial e eu desenhava algo sem sentido, porque naquela sala fria e cinza eu era o único que não precisava aprender, mas queria aprender porque ela ensinava.

   Or we could just scatter our dirty clothes on a bed made of coal and eat ourselves, drinking some neurotoxins, whispering our desires and wills under the sound of a harmonica and the noise of a grudging and smirking sky, look there my love, there are fire clouds up there.
  
  Tuas mãos inteiras claramente desfazendo os nós dos cabelos ou arrumando as meias de desenho animado, quase patética, lânguida. Em meu rosto escorrendo sangue, polaróides roubadas e quebradas, golpes secos nas nossas carnes e tua pele entre meus dentes tortos (tronchos, diria ela, e eu riria dizendo que depende da situação), mas ela não se desculparia, porque teria de se desculpar?

   Por um desconforto, por puxar o gatilho que me fez morder uma bala ou por degolar-me usando uma faca cega e serrilhada. Suas mãos estão cortadas de papel das cartas que você não me deu?
 Eu as comi, ah, é verdade. Absorção, havia isso. Acreditava nisso.

  It was a day with fine weather, and we were eating, chewing and talking, that was day that i’d felt in love for you, 22 year old girl, and in that day i was completely insane, for the lack os sleep and too much worries in my mind, and in that day, the sky was different.
  
  Ela apoiava-se com um pé no chão e outro pé na parede, as calças naturalmente apertadas e sapatos que pareciam desconfortáveis demais nos pés, a tensão da costura quase se rompia apesar da magreza das pernas que despertava todo tipo de pensamento não permitido antes das onze da noite.  As luzes de uma banda qualquer, muito ruim, perdiam-se nos seus olhos e eu não queria estar tão perto, porque meus olhos perdiam-se nos seus e seus olhos perdiam-se nas luzes estroboscópicas, e o que corria nas minhas veias era 2,4 Dinitrofenol.  

 YEAH BABY, THAT WAS A BLOODY TALKIN’

  As janelas abrem-se para a luz alaranjada e mortiça de uma madrugada estéril, e eu penso que fui expulso do único terreno que queria criar raízes, queria deitar-me no asfalto sujo de sangue do teu coração, mordê-lo até não sobrar nada além de mim mesmo, com a boca cheia de sangue e tramadol, o vento da noite sempre tem um cheiro diferente, uma noite é de jasmim e a outra noite é almíscar envelhecido, uma noite é cerveja e malte, uma noite é sangue e as sirenes da polícia subindo a avenida, os sons dos carros com suas músicas vulgares me levam para o tempo onde teus dentes eram meus dentes.
  
  Impossível determinar com exatidão qualquer mínima palavra que foi trocada sem que se destilassem pontos de fuga e uma teia enorme de possibilidades e vontades.

  Sempre temo que ao acender-se o dia eu perca a conexão neural que liga teu rosto ao teu nome e anonimante teu rosto fique gravado em algum lugar nos meus meandros mentais, como uma folha seca, anônima em meio as suas irmãs.  Os sons da madrugada são inexistentes quase ás três, porque essa é a hora que as mocinhas pequenas de 22 anos já deveriam estar dormindo.
 Do you like to sleep with your hands between your thighs, girl? Or do your mommy said that is not  polite for a young girl, let me break your glasses with my teeth and i’m sure baby, oh i’m so sure, that you will handle so well this pain, make me your mirror and let our bites hit where they may.

 Três da manhã e tudo já parece fechado, os pés tocando o asfalto frio e parece até que já foi orvalhado, nem parece que quando o sol tocar a terra isso tudo vai esquentar como se o inferno estivesse subindo  e ascendendo em direção a um céu azul e enevoado.

   A Crotamina parece estar na água, ou no ar, acelerar minha palpitação como se ela chegasse agora e me agarasse o pescoço. Há uma floresta aqui perto, podíamos explora-lá em uma noite clara dessas, ou num dia de chuva, um dia bonito, você diria e eu iria concordar com certeza, sinto tuas mãos como lumes incandescentes a me chamarem e iluminarem o caminho, mas tudo está escuro na madrugada voraz, com seus sons miúdos de gemidos e sirenes, carro na avenida e gato trepando no telhado. Lá no alto as nuvens arroxeadas se movem com o vento diante dos meus olhos com redomas e mostram uma lua pálida, como um tolo qualquer ligo os pontos no firmamento, desenho o teu rosto nas estrelas mortas.




Nenhum comentário:

Postar um comentário