Quando eu
olhei aquele prédio de longe, não vi um prédio, açoitado pelo vento da noite a
estrutura ainda em construção era mais um monolito vivo e distorcido. Eu deveria subir até onde Raziel Darabont
estava, e então deveria matá-lo. Então levaria para casa um delicioso cheque
com alguns zeros a mais e completamente livre de impostos. Lá em cima as nuvens
corriam velozes e escondiam a luz natural da luz, eu teria que me virar com as
luzes dos postes e uma ou outra réstia ocasional de luar, no celular eu olhava
a foto que Andrioli, o mandante, me enviara, era um homem bonito, com um
furinho no queixo e olhos cinzentos, sua cabeça era coberta por uma juba de
bastos cabelos acaju.
Subi no prédio, ainda em construção. O cheiro
de cimento e pó de gesso era insuportável, enquanto protegia o nariz com um
pano, mesmo pano que, se caso Daranbont resistisse, iria para o rosto dele com
uma boa dose de clorofórmio. Eu pensava no que diabos um devedor aidético e
jogador compulsivo estava fazendo ali, ninguém havia o avisado de nada, nenhum
Ubica ou Angel of Death estava atrás dele. Do elevador de serviço eu obseravava
a área, era cheia de becos e você podia ver as brasas incandescentes dos
cachimbos de crack daquela altura, era como milhares de gatinhos de olhos
brilhantes lá embaixo.
Subi, havia uma brasa no pretume da noite, lá
de baixo as luzes semoventes dos carros eram hipnóticas, Daranbont estava na
escuridão, fumando alguma coisa. Ele notou-me rápido, sorriu. Não era nada do
que eu imaginava, ou do que eu vira na foto. Raziel era magrelo, esquelético,
seus olhos eram enormes no rosto e a tez era branca como cal, ele ria da minha
cara, seus dentes era assustadores, enormes na magreza do rosto.
–Quem é você, rapaz? –Ele me perguntou com
aquele riso relinchado.
–Meu nome é
Vincent Contreras. Eu... Andrioli me mandou.
Raziel chiou, um som de deboche.
–Andrioli,
você é um matador não é. Eu devo mais de meio milhão para Andrioli.
–Sim, eu vim
aqui pra matar você. Mas acho que você já sabia. –E apontei para o horizonte
vazio, ele estava na beira, um pé para fora. Como um bailarino, se preparando
pra saltar.
–Volte aqui
Daranbont.
–Porque,
Contreras?
–Faz alguma
diferença morrer pulando ou eu matar você?
–Alguma,
pouca na verdade, se eu pular, talvez eu não morra, mas você é um assassino
profissional, e daqui eu não escapo. E nem quero.
Ele rodopiava, sua voz era afeminada e
entrecortada, andava pelas bordas do prédio sem nenhum medo e o vento lambia
seus cabelos, por um momento o achei lindo, porque ele não duraria mais do que
aquilo.
–Sabe como eu peguei Aids? –Ele perguntou.
–Isso
importa, Daranbont?
–Sim, me
considero no direito de ter últimas palavras. –Aquiesci com um aceno de cabeça,
a minha amada Magnum .45 apontada direto para o rosto dele, deveria atirar um
segundo antes de ele pular. Se ele caísse eu ficaria manchado e sem grana. Ou
seja, viraria mais um sicário de merda, matando maconheiros pra comer uma
quentinha no dia seguinte.
–Então venha
mais para cá, ok, Raziel? –Ele gargalhou.
–Vamos agir
como homens Contreras, eu sou só um velho contando minha última história. –E
suspirou, retomando o fôlego. E então sentou-se ao lado de um monte de cordas
trançadas, debaixo das luzes fracas de emergência, os olhos de Raziel Daranbont
sumiam completamente.
–Peguei Aids
em 88, num veraneio qualquer, muitos embalos de sábado a noite, heroína,
cocaína e a manga rosa brasileira que deixava os gringos malucos, esses ingleses
eram acostumados com o haxixe pesado, endoidaram no primeiro trago. Eu pirei
dos 90 até semana passada, joguei e fiz muitas dívidas, tudo pra comprar
coqueteis.
–O que
aconteceu depois que você pegou a Aids?
–Eu matei a
puta que me passou, num ataque de fúria em 1994. Como você vai fazer comigo,
mas acho que você é mais antisséptico, eu não fui cuidadoso.
Engoli em seco, Raziel tinha um brilho de
loucura nos olhos e eu não podia ver o que ele estava fazendo com as mãos
naquela escuridão toda, começava a achar que pra cada frase que ele dizia, um
zero a mais devia ser acrescentado ao meu cheque.
–Quer saber
como eu a matei?
–Você parece
louco pra contar, quem sou eu pra dizer não.
Ele arfou, estava tossindo.
–Está na hora
do meu Etravirina, tem água aí, Contreras?
–Não, não
tenho.
–Que seja,
para matá-la eu usei um cabide e uma maçaneta. Bati a cabeça dela contra a
porta e depois finalizei com o cabide, quebrando as costelas até um pedaço de
osso entrar no coração. Foi o tempo de duas músicas de Muddy Waters. Mas
depois, depois eu me senti mais sujo do que qualquer outra criatura no mundo, o
sangue havia espirrado por todo canto e eu tinha que me livrar do corpo, então,
então peguei o que restou dela, não sobra muita coisa sólida depois que você
acaba com a caixa torácica. Pus dentro de um cesto grande de lavanderia, peguei
também o cabide, desmontei-o, e um espelho. Pus no cesto e dirigi até uma
encruzilhada, acendi velas para pensarem que eu estava fazendo alguma macumba
ou algo do tipo e não me perturbariam, fui até de branco. –Ele sorriu com
aqueles dentes eqüinos e eu pensei que ele realmente fora muito esperto.
–Abri um
buraco e enterrei as coisas, mas então veio a pior coisa que já senti, uma
culpa tão repulsiva que me fez chorar na beira da cova que eu mesmo havia
cavado, me forcei a olhar para dentro como se estivesse olhando pelo abismo
para o inferno e, debaixo de terra e sangue, eu vi um monstro quando a luz da
lanterna bateu no espelho. Daquele lugar eu fugi, para nunca mais voltar, fugi
até aqui. –Ele disse, e puxou a corda,
houve um movimento fluído como água da fibra e três carrinhos de mão cheios de
cimento foram puxados com violência e caíram puxando a corda com o peso de mil
demônios para o chão lá embaixo que parecia um formigueiro iluminado. Pulei
para um lado e caí, disparando a .45 em vão, tentando acertá-lo, Raziel
Daranbont subiu pelos ares como um boneco desconjuntado, eu ouvi seu pescoço se
quebrar e o corpo esquelético rodopiou até chegar lá embaixo, no meio do
trajeto eu lhe acertei a bala no rosto.
Fiquei horas ali naquele prédio, com medo
descer o olhar para baixo, suando em bicas e deitado no chão, com medo de olhar
para a rua e ver, me esperando e rindo com desdém no asfalto, com medo de ver o
monstro no espelho.
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