terça-feira, 18 de março de 2014

The Mirror

   

   Quando eu olhei aquele prédio de longe, não vi um prédio, açoitado pelo vento da noite a estrutura ainda em construção era mais um monolito vivo e distorcido.  Eu deveria subir até onde Raziel Darabont estava, e então deveria matá-lo. Então levaria para casa um delicioso cheque com alguns zeros a mais e completamente livre de impostos. Lá em cima as nuvens corriam velozes e escondiam a luz natural da luz, eu teria que me virar com as luzes dos postes e uma ou outra réstia ocasional de luar, no celular eu olhava a foto que Andrioli, o mandante, me enviara, era um homem bonito, com um furinho no queixo e olhos cinzentos, sua cabeça era coberta por uma juba de bastos cabelos acaju.

  Subi no prédio, ainda em construção. O cheiro de cimento e pó de gesso era insuportável, enquanto protegia o nariz com um pano, mesmo pano que, se caso Daranbont resistisse, iria para o rosto dele com uma boa dose de clorofórmio. Eu pensava no que diabos um devedor aidético e jogador compulsivo estava fazendo ali, ninguém havia o avisado de nada, nenhum Ubica ou Angel of Death estava atrás dele. Do elevador de serviço eu obseravava a área, era cheia de becos e você podia ver as brasas incandescentes dos cachimbos de crack daquela altura, era como milhares de gatinhos de olhos brilhantes lá embaixo.
 Subi, havia uma brasa no pretume da noite, lá de baixo as luzes semoventes dos carros eram hipnóticas, Daranbont estava na escuridão, fumando alguma coisa. Ele notou-me rápido, sorriu. Não era nada do que eu imaginava, ou do que eu vira na foto. Raziel era magrelo, esquelético, seus olhos eram enormes no rosto e a tez era branca como cal, ele ria da minha cara, seus dentes era assustadores, enormes na magreza do rosto.
 –Quem é você, rapaz? –Ele me perguntou com aquele riso relinchado.
–Meu nome é Vincent Contreras. Eu... Andrioli me mandou.
 Raziel chiou, um som de deboche.
–Andrioli, você é um matador não é. Eu devo mais de meio milhão para Andrioli.
–Sim, eu vim aqui pra matar você. Mas acho que você já sabia. –E apontei para o horizonte vazio, ele estava na beira, um pé para fora. Como um bailarino, se preparando pra saltar.
–Volte aqui Daranbont.
–Porque, Contreras?
–Faz alguma diferença morrer pulando ou eu matar você?
–Alguma, pouca na verdade, se eu pular, talvez eu não morra, mas você é um assassino profissional, e daqui eu não escapo. E nem quero.

  Ele rodopiava, sua voz era afeminada e entrecortada, andava pelas bordas do prédio sem nenhum medo e o vento lambia seus cabelos, por um momento o achei lindo, porque ele não duraria mais do que aquilo.
 –Sabe como eu peguei Aids? –Ele perguntou.
–Isso importa, Daranbont?
–Sim, me considero no direito de ter últimas palavras. –Aquiesci com um aceno de cabeça, a minha amada Magnum .45 apontada direto para o rosto dele, deveria atirar um segundo antes de ele pular. Se ele caísse eu ficaria manchado e sem grana. Ou seja, viraria mais um sicário de merda, matando maconheiros pra comer uma quentinha no dia seguinte.
–Então venha mais para cá, ok, Raziel? –Ele gargalhou.
–Vamos agir como homens Contreras, eu sou só um velho contando minha última história. –E suspirou, retomando o fôlego. E então sentou-se ao lado de um monte de cordas trançadas, debaixo das luzes fracas de emergência, os olhos de Raziel Daranbont sumiam completamente.
–Peguei Aids em 88, num veraneio qualquer, muitos embalos de sábado a noite, heroína, cocaína e a manga rosa brasileira que deixava os gringos malucos, esses ingleses eram acostumados com o haxixe pesado, endoidaram no primeiro trago. Eu pirei dos 90 até semana passada, joguei e fiz muitas dívidas, tudo pra comprar coqueteis.
–O que aconteceu depois que você pegou a Aids?
–Eu matei a puta que me passou, num ataque de fúria em 1994. Como você vai fazer comigo, mas acho que você é mais antisséptico, eu não fui cuidadoso.
 Engoli em seco, Raziel tinha um brilho de loucura nos olhos e eu não podia ver o que ele estava fazendo com as mãos naquela escuridão toda, começava a achar que pra cada frase que ele dizia, um zero a mais devia ser acrescentado ao meu cheque.
–Quer saber como eu a matei?
–Você parece louco pra contar, quem sou eu pra dizer não.
 Ele arfou, estava tossindo.
–Está na hora do meu Etravirina, tem água aí, Contreras?
–Não, não tenho.
–Que seja, para matá-la eu usei um cabide e uma maçaneta. Bati a cabeça dela contra a porta e depois finalizei com o cabide, quebrando as costelas até um pedaço de osso entrar no coração. Foi o tempo de duas músicas de Muddy Waters. Mas depois, depois eu me senti mais sujo do que qualquer outra criatura no mundo, o sangue havia espirrado por todo canto e eu tinha que me livrar do corpo, então, então peguei o que restou dela, não sobra muita coisa sólida depois que você acaba com a caixa torácica. Pus dentro de um cesto grande de lavanderia, peguei também o cabide, desmontei-o, e um espelho. Pus no cesto e dirigi até uma encruzilhada, acendi velas para pensarem que eu estava fazendo alguma macumba ou algo do tipo e não me perturbariam, fui até de branco. –Ele sorriu com aqueles dentes eqüinos e eu pensei que ele realmente fora muito esperto.
–Abri um buraco e enterrei as coisas, mas então veio a pior coisa que já senti, uma culpa tão repulsiva que me fez chorar na beira da cova que eu mesmo havia cavado, me forcei a olhar para dentro como se estivesse olhando pelo abismo para o inferno e, debaixo de terra e sangue, eu vi um monstro quando a luz da lanterna bateu no espelho. Daquele lugar eu fugi, para nunca mais voltar, fugi até aqui.  –Ele disse, e puxou a corda, houve um movimento fluído como água da fibra e três carrinhos de mão cheios de cimento foram puxados com violência e caíram puxando a corda com o peso de mil demônios para o chão lá embaixo que parecia um formigueiro iluminado. Pulei para um lado e caí, disparando a .45 em vão, tentando acertá-lo, Raziel Daranbont subiu pelos ares como um boneco desconjuntado, eu ouvi seu pescoço se quebrar e o corpo esquelético rodopiou até chegar lá embaixo, no meio do trajeto eu lhe acertei a bala no rosto.
 Fiquei horas ali naquele prédio, com medo descer o olhar para baixo, suando em bicas e deitado no chão, com medo de olhar para a rua e ver, me esperando e rindo com desdém no asfalto, com medo de ver o monstro no espelho.




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