quarta-feira, 4 de março de 2015

Coeur de Pirate

 Deixei um saco de ossos na porta de Cemetery Miles, antes de caminhar ao lado das águas calmas da baía, e enquanto caminhava, o cheiro da pele dela vinha do mar revolto ou do céu cinzento, eu não sabia, não sei até hoje.

Andava como um cão cansado, no meu ritmo ciclotímico.

“Venha sentar-se à mesa” os camponeses me disseram, mas neguei, passaria a tarde olhando o mar, bravo, batendo contra as rochas de Bishop’s Lane. O mundo se move tão devagar, eu suponho, as estrelas que giram sobre a minha cabeça pontuam cada estada com um diamante, e o sino da igreja toca sete vezes, em estranha harmonia com as ondas do mar.

E andando pelos campos e mares, conversando com os faunos e dríades e coisas que não devo e nem posso lembrar, descobri que o mausoléu está dentro do coração do homem.
Mas minha irmã me chamava de Coeur de Pirate.
Viva o amor, eu dizia, e os danos irreversíveis que ele deixa, mas os camponeses insistiram para que eu sentasse com eles, e nada pude fazer a não ser tirar o robe de chambre e oferecer minha cartola ao vento. Nos barcos os marinheiros cantavam sobre deus e sobre tempestades.

Oh forasteiro, eles diziam, se você não comer quem vai comê-lo é o mar.
E sentei com eles, pensando em pegar a corrente sul pela manhã até encontrar o gelo, e deleitar-me com a aurora que nem de longe era tão brilhante como os olhos dela, ele, o mar, se lançava nas rochas, escavando-as, destruindo-as, e eu bebia o cointreau debaixo da triste luz do farol, ao meu lado os caçadores do Transvaal negociavam peles, eu negociava meu coração, nem caro, nem barato, apenas o suficiente.
Quanto você dá por um Coração de Pirata?

Como se chama forasteiro? Perguntou Lady Cashmere.

Coeur de Pirate eu respondi, sorrimos enquanto o peixe fresco vinha a mesa, exalando fumaça como a das trincheiras na guerra em que lutei no Monte Wroclai, e as espadas e baionetas retiniram no campo. Eu me lembro do capitão contando histórias.
“As trincheiras são tão feias a luz da manhã, mas com meus irmãos de armas, nunca me senti tão bem” Ele costumava gritar, antes do exército inimigo nos massacrar pelos campos de Anzio nos seus trilhos Intercontinentais.

Enquanto o tempo passava eu dormi em estâncias camponesas, levei em meus lábios os beijos de Lady Cashmere e minha espada tirou sangue de diversos homens bravos, mas eu sempre seguia um curso do som ou luz filtrada pela manhã ou fim de tarde. Então conheci em Nantes uma grande orquestra onde eles tocavam o que eu queria escutar, mas ainda não havia encontrado-a, nem nas noites de Bishop’s Lane, ou nos dias enevoados de Nantes.
 Ela apareceu uma vez, quando eu voltava para o Monte Wroclai e tentava conviver com as lembranças da guerra e das trincheiras, de como as rodas dos tanques pareciam-se rodas gigantes, ela apareceu na janela de um trem, lábios vermelhos no rosto pálido, tão lindo quanto a Transiberiana pela qual viajaria.

E meu Coração de Pirata derreteu em meu peito.

Eu me pergunto agora onde eu estaria se houvesse segurado a sua mão, meus lábios nem teriam reminiscência de sabor dos de Lady Cashmere, ou passado noites com a prostituta de Marselha. Adiante na trilha eu descobria as pequenas passagens dela pelo mundo sépia e cinzento de portos e estações de trens do Leste Europeu, entre os rostos sisudos das romenas e das noites de sexo quente com as húngaras eu pensava em como poderia recuperar meu Coração de Pirata.
Uma vez um homem me fez beber sangue em uma madrugada em Canterbury, um tal de Lancaster Kronberg.

Lutei com um homem chamado Santiago e ele me venceu, beijei os olhos verdes de sua filha e ela me beijou os lábios, um louco chamado Redrin tentou me matar, mas sobrevivi, e agora somos amigos, e ele me disse que conhecia um caminho para um Coração de Pirata, mas eu teria que ir para o distante Norte onde as almas dançam no céu, e eu voltei sozinho pelo mar amargando noites escuras com estrelas reluzentes, mas as estrelas não eram companhia e estava indiferentes.

Quando cheguei em Bishop’s Lane não havia nem vila, nem mesa ou comida, nem Lady Cashmere e nem a prostituta de Marselha, havia apenas o saco de ossos, e ela contava um por um, suas pequenas mãos brincavam com as costelas e o esterno, dele ela fez flautas que embalaram nossas noites. Sangrei onde Santiago me cortou, e onde Redrin bateu em mim, a pele ficou roxa, meus lábios ficaram quentes.
Ela deixou um saco de ossos na porta de Cemetery Miles e pegou minhas mãos, meus olhos cascateavam sob a luz das estrelas.

Coeur de Pirate
Ela disse, e no corte da espada eu tirei meu coração e a dei.

E agora navego para sempre pelo caminho entre praia e mar, até encontrar meu Coração de Pirata outra vez

Uma vez minha irmã disse para mim:
Nós somos peregrinos em uma longa jornada.

Eu acho que ela estava certa. 

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